Como formar os médicos do futuro?

As escolas médicas devem dirigir as suas atividades de educação, investigação e serviço público de acordo com as preocupações de saúde prioritárias para a comunidade, região e/ou país que servem.” Para continuarmos a cumprir este propósito de responsabilidade social definido pela Organização Mundial de Saúde, urge proceder a várias mudanças na formação dos futuros médicos.

O cada vez mais rápido avolumar do conhecimento científico biomédico, associado ao acelerado desenvolvimento tecnológico, é um dos enormes desafios da prática médica moderna, que se vai ampliar exponencialmente nos próximos tempos.

Se esta constante e inexorável evolução explica a crescente atenção que os médicos dedicam à educação, aprendizagem e treino contínuos ao longo da vida, também exige a atualização das disciplinas já existentes, bem como a escolha das novas matérias a ensinar na pré-graduação.

As explosões científicas e tecnológicas têm sido acompanhadas pelo aparecimento de outros modelos aplicados ao ensino médico, como a aprendizagem baseada em problemas ou em grupos, que se sobrepõe às aulas teóricas, as quais tendem a cair progressivamente em desuso.

Não menos relevante do que a revisão periódica dos programas a lecionar e a adoção de novos modelos pedagógicos é a utilização de instalações multiusos altamente tecnológicas, que permitam o uso de técnicas de simulação médica, incluindo o recurso a doentes modelo, e estimulem o trabalho de equipa, que se quer cada vez mais interdisciplinar.

As já conhecidas e esperadas transformações nos cenários da prestação de cuidados de saúde — privilégio do ambulatório, envelhecimento populacional, tipos de financiamento, procura de diagnósticos precoces — obrigam a reconstruir a cultura da prática médica.

Um curso de Medicina moderno e inovador não pode, é óbvio, deixar de abordar as bases científicas da Medicina, os fundamentos e diversidade da conduta médica e os cuidados centrados no doente. Mas também não deve, jamais, descurar uma forte componente capaz de enfatizar os valores profissionais do médico, assentes na ética, deontologia, humanismo e cidadania.

Da teoria à prática, a aquisição da necessária destreza clínica deve passar por contactos precoces — desde o primeiro ano do curso — com doentes e serviços de saúde e pelo recurso a laboratórios experimentais e centros de simulação, numa relação próxima com a investigação e a produção científica.

Temos de pensar o ensino da Medicina enquadrado nos desafios do século XXI e alinhado com as agendas globais. E isso passa pela criação de valor em saúde, quer através da excelência dos cuidados a prestar, quer através da disseminação do saber e da implementação de soluções inovadoras. Cabe-nos a nós, escola, colocar o conhecimento ao serviço da população. Só assim poderemos alcançar uma sociedade mais justa, sustentável e solidária.

Jaime C. Branco

Médico reumatologista, professor catedrático e diretor da NOVA Medical School, Faculdade de Ciências Médicas da Universidade NOVA de Lisboa